OLHAR DE CINEMA 2017 — VI FESTIVAL INTERNACIONAL DE CURITIBA – (ver foto abaixo) — Sempre que chego a uma cidade para acompanhar um festival ou mostra de cinema, corro à banca mais próxima para comprar os jornais locais. Cheguei a Curitiba sabendo que a Gazeta do Povo, o maior jornal do estado, havia deixado de circular em papel, dias antes. Mas chegar, fisicamente, à banca e não encontrar o jornal, foi ainda mais impactante. Na banca do aeroporto, deparei-me com uma edição em papel branco e formato entre o standard e o tabloide com o nome Gazeta do Povo. Preço: dez reais. Comprei para conhecer a edição física do que restou do poderoso matutino curitibano: uma edição semanal e morna. Comprei, ainda, A Tribuna, um tabloide ligeiro dedicado a Esporte, crimes e TV, de leitura ultra-rápida. Só na Boca Maldita, numa banca grande, consegui o Jornal de Londrina, no qual escreve o jornalista e crítico Carlos Eduardo Lourenço Jorge, moderador dos debates no Festival de Gramado, e crítico respeitado e experiente. Ele está em Curitiba em função dupla: colhendo material para sua prestigiada coluna O CINEFILO FIEL e como integrante do juri da MOSTRA OLHAR PARANAENSE, composta com a produção do estado no formato curta-metragem. Num giro pela Boca Maldita, encontrei o “Brasil de Fato”, hoje também digital, em edição condensada em papel. Antes de falar dos filmes, falo da imprensa, porque este é um assunto que me interessa muito e estou, ainda, impactada pelo imenso artigo de Fernando Haddad, na revista PIAUI, de junho, veículo que rema contra a corrente. Enquanto todos apostam em notícias curtas, a revista dedica dez páginas a relato e análises do ex-prefeito de São Paulo sobre sua passagem pelo cargo e sobre o Brasil dos últimos anos, em especial de 2013 para cá. E o professor da USP, ex-ministro da Educação e ex-prefeito, dedica amplo espaço a emissoras de TV, rádio e aos jornais paulistas. Uma análise dura. Pois bem, no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, fui comprar o Valor Econômico. O que encontrei? A imensa loja que somava livros e jornais de vários estados do país em seus áureos tempos, virou um cubículo apertado, cedendo seu espaço a uma imensa lanchonete. Estamos no seguinte impasse: os jornais de papel podem até não acabar. Caso não acabem, resta-nos perguntar, onde encontrarão pontos de venda, se a cada novo dia bancas desaparecem????? —O OLHAR DE CINEMA — O filme escolhido para abrir a sexta edição do Festival Curitibano — A FAMILIA, de Gustavo RONDON — confirmou a boa fase vivida pelo cinema venezuelano. O público lotou três salas do Espaço Itaú de Cinema, a principal sede do OLHAR. E a relação entre um pai pobre, jovem e sozinho com o filho pré-adolescente, envolvido em um crime, mobilizou a plateia e revelou que parece distante a época em que o cinema venezuelano era o terror (no pior sentido da palavra) dos festivais latino-americanos. Depois de “Pelo Malo” e de DESDE ALLA (De Longe eu te Observo, vencedor do Leão de Ouro de Veneza 2015) a situação é bem outra e muito positiva. ****A Retrospectiva MURNAU, com dez de seus principais filmes, traz cópias novíssimas, fruto de restauro da obra do grande diretor alemão, empreendido pelas cinematecas de Munique, Bolonha e Milão (ótima platéia em todas as sessões). **** No segmento OLHAR CLÁSSICO, um dos programadores do Festival, Eduardo Valente, apresentou HISTORIA DE TAIPEI, do chinês insular Edward Yang (1947-2007), que morreu aos 59 anos, alguns poucos anos depois de YI YI (As Coisas Simples da Vida) render a ele uma Palma de Ouro de melhor direção, em Cannes. E Valente recomendou, ao público, que ficasse atento ao filme “Viagem ao Fim do Universo”, do tcheco Jindrich Polák, de 1963. O catálogo do OLHAR DE CINEMA define este filme como um precursor de clássicos da ficção científica como 2001, Uma Odisseia no Espaço. *** A principal mostra competitiva do Festival não repetiu a ótima performance do filme de abertura (A Família), nem dos primeiros Murnau (prenúncio de que dali sairia muita coisa boa), nem do excelente filme de Yang, criativo até nos merchandising (um da Pepsi Cola e outro da Fuji Filmes). O filme que abriu a competição — VANGELO (Evangelho), do italiano Pippo. Delbono — é amador, no mau sentido da palavra e, o que é pior, o diretor aparece mais que seus personagens (refugiados africanos, afegãos e árabes). Seria muito bom se Pippo assistisse a ERA O HOTEL CAMBRIDGE, de Eliane Caffé, ou revisse FOGO NO MAR, de seu conterrâneo Gianfranco Rosi. O segundo competidor, NEWTON, da Índia, é uma comédia de tema que poderia ter rendido um grande filme: a luta pela inclusão de populações esquecidas em distante vilarejos no processo de eleições democráticas. Mas falta profundidade ao roteiro e a direção de Niles Atallah acaba cedendo a soluções fáceis. O que segura o interesse do espectador mais exigente é o elenco, muito bom.

Enviado do Ipad de Rosário

Enviado do Ipad de Rosário

Anúncios