LIVROS DE NORMA BENGELL E OFELIA MEDINA

+ LIVROS DE NORMA

BENGELL & OFELIA MEDINA
Dia destes, numa banca da Avenida Paulista, vi que a biografia de Norma Bengell, publicada em 2014, pela Editora nVersos, estava sendo relançada a preço popular: R$29,90. Uma ninharia, levando-se em conta a qualidade da edição, com dossiê fotográfico de tirar o fôlego (fotos, muitasss, impressas com altíssima qualidade técnica). Ainda sob o efeito da biografia da atriz mexicana Ofélia Medina, a Frida de Paul Leduc, comprei o livro da atriz (e cineasta) brasileira. Comecei a lê-lo e assustei-me com os primeiros capítulos. Ofélia Medina, ao falar de sua vida pessoal, pauta-se pela elegância, contenção e equilíbrio. Já em “Norma Bengell”, tudo é desmedido. Relatos sobre noitadas com os mais diversos homens, jovens ou mais velhos, chegam a cansar. Tudo que se refere a Alain Delon é excessivo. Sobre os filmes em que ela atuou, parágrafos curtos, rápidos. Bissexual assumida, Norma fala de seus casamentos primeiro com o ator Gabrielle Tinti, depois com Gilda Grilo e com Sônia (Norma prefere não dar a assinatura da companheira), sua parceira por mais de três décadas. Por sorte, à medida que ela vai envelhecendo, o livro deixa o sexo um pouco de lado. Norma não foge de nenhum assunto. Relembra seu afastamento da novela “Dancin’ Days”, de Gilberto Braga (ela mesma admite que queria, digamos, ajudar o teledramaturgo a criar sua personagem, Iolanda Pratini — com o afastamento de Bengell, o papel coube a Joana Fomm), das confusões causadas por “O Guarani” em sua vida, dos adjetivos que costumavam acompanhá-la (“puta, lésbica e comunista”), de suas visitas a presidentes da República, militares ou civis, e da peça que preparou com a atriz Maria Manoela (a Manu de “Vermelho Russo”) e que teve que abandonar, pois abalada pela morte da companheira Sônia, viu lapsos de memória a derrotarem. O texto flui e torna-se mais atrativo quando La Bengell relembra seus trabalhos no grupo teatral de Patrice Chereau (o cineasta de “Rainha Margot”), sua militância feminista, mas vira uma confusão quando ela relembra sua militância política. E este mesmo texto parece contraditório e grosseiro quando se refere a Alberto Sordi (seu parceiro em “O Mafioso”, de Alberto Lattuada) e a visita que fez ao casal Montand-Signoret, em Paris. Norma, que nunca soube cuidar de dinheiro (gastava quase tudo em vestidos e joias para prémières badaladas de seus filmes europeus ou brasileiros) morreu pobre, numa cadeira de rodas, sem herdeiros e parentes. No enterro dela, conta informação agregada ao livro pela produtora Christina Caneca, havia “14 pessoas”. Uma delas era Luiz Carlos Barreto. Que aliás, assina um belo, conciso e carinhoso prefácio ao livro. A mulher que arrasou imitando Brigitte Bardot em “O Homem do Sputnik” e fascinou (e ainda fascina) o país com a cena de nudez de “Os Cafajestes” (primeiro — e mais belo, ainda insuperável — nu frontal do nosso cinema) era encrenqueira. Daí os poucos amigos no difícil final de vida (ela morreu no Rio, aos 78 anos). Há, neste belo livro-álbum, informação que me intrigou: Norma diz que detinha porcentagem em “Os Cafajestes”. Como o filme estreou e foi proibido pela Censura (que aceitou pressão de uma escandalizada Igreja Católica), ela resolveu vender sua parte. Com o dinheiro, comprou vestidos de gala para ir a Cannes (acompanhar a equipe de “O Pagador de Promessa”, filme que rendeu a Palma de Ouro a Ancelmo Duarte e que a apresentou ao cinema europeu). Por sua narrativa, o filme de Ruy Guerra foi um fracasso. Não é o que se conta. Liberado depois, “Os Cafajestes” teria mobilizado grandes plateias. Quem está certo?
JÁ O LIVRO DE OFELIA MEDINA

Anúncios