*****RENATO TAPAJÓS

FILMES SOBRE IMPEACHMENT,
CONGRESSO NACIONAL E
BRASIL EM TRANSE

Por Maria do Rosário Caetano

A revista PIAUI acaba de publicar, em sua versão digital, ampla matéria sobre filmes (e livros) que têm o impeachment de Dilma Roussef como tema principal (ou ponto de partida). Ou documentários que buscam desenhar perfil do Congresso Nacional (Câmara e Senado), que respaldou a retirada da presidenta eleita do comando do Executivo. Com foco especial em sessão que entrou para a história brasileira devido ao (baixíssimo) nível das “dedicatórias” proferidas por grande parte dos parlamentares-votantes.
Meses atrás, aqui no Almanaque-Almanakito, publicamos levantamento dos filmes (sobre a atual crise brasileira) que estavam em processo de realização. E eles eram oito. Além das produções (nenhuma finalizada ainda) são citados, na matéria da PIAUI, cinco documentários (ver lista abaixo).
Quatro títulos foram esquecidos. Três de projetos desenvolvidos fora das cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. Caso de “Esquerda em Transe”, de Renato Tapajós (Campinas) e dos filmes de Adirley Queirós (de Brasília) e de Boca Migotto, do Rio Grande do Sul. Também não é mencionado o documentário no qual o professor da USP, escritor, cineasta, roteirista e cineasta Jean-Claude Bernardet vem trabalhando e que tem a recente crise brasileira como foco.
Depois de ler a matéria da PIAUÍ, o cineasta e escritor Renato Tapajós, cujo filme “Linha de Montagem” integra a “Lista de 100 Melhores Documentários Brasileiros” — elaborada a partir de votação de quase cem associados da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e que em breve se transformará em livro — enviou carta ao Almanaque-Almanakito, que transcrevemos abaixo.
Segue, primeiro, a lista de filmes abordados pela matéria da PIAUI (quatro títulos produzidos no Rio e em São Paulo e uma produção européia). Depois dela, seguem os filmes ignorados. E, por fim, um adendo: dois filmes já concluídos — um deles em cartaz (“Martírio”, de Vincent Carelli, com co-direção de Ernesto de Carvalho e Tita) e
o outro em circulação pelos festivais (“Entre os Homens de Bem”, de Caio Cavechini & Carlos Juliano) — traçam arrasador retrato de parte do Parlamento brasileiro. O primeiro mostra a ação da Bancada BBB (Boi, Bala, Bíblia) em sua fúria contra os povos originários (nossos índios) e o segundo apresenta o cerco ao deputado Jean Wills, defensor dos direitos civis, em especial os homoafetivos.

* TITULOS CITADOS NA MATERIA DA REVISTA PIAUÍ:

1. “O Processo” (título provisório) de Maria Augusta Ramos (RJ)

2. “No Palácio com Dilma” (ainda sem título definido), de Lô Politi, César Charlone
e Anna Muylaert (produtores: ainda não está definido quem assinará a direção do
filme) – (SP)

3. “Impeachment: Dois Pesos, Duas Medidas” – Documentário de Petra Costa (RJ)

4. “Excelentíssimos” — Documentário de Douglas Duarte sobre o Parlamento que votou o impeachment e as manifestações populares (RJ)

5. “O Grande Salto para Trás”, de Fredérique Zingaro e Matilde Bonnassieu (produção europeia)

OS NÃO-CITADOS:

1. “Esquerda em Transe”, de Renato Tapajós (Campinas)

2. Documentário de Adirley Queirós (Brasília-DF)

3. Documentário de Boca Migotto (Porto Alegre-RS)

4. Documentário de Jean Claude Bernardet (São Paulo)


Segue carta de caráter pessoal cuja divulgação poderá confundir-se com tentativa de “aparecer”. Asseguro que não é. E se, a alguns assim parecer, entendo que isto é de menor importância. Grande abraço – Renato Tapajós

A CARTA DO CINEASTA RENATO TAPAJÓS

Sobre matéria da PIAUI a respeito de filmes sobre o impeachment:


Creio que você já deve ter lido a matéria que saiu no site da PIAUI sobre os filmes que estão sendo feitos a respeito do impeachment da Dilma. Você já havia escrito sobre isso há algum tempo atrás. Mas, na matéria da PIAUI, o nosso filme “Esquerda em Transe” não existe.
Imagino que pelo fato da nossa produtora estar em Campinas, acrescido ao fato de eu não estar nas rodas do cinema paulista (estou cada vez mais querendo me fechar na ilha de edição, convencido de que devo mesmo evitar a política interna do cinema). Sei que talvez eu esteja errado em relação a isso e devesse circular mais nos chamados meios cinematográficos.
Talvez depois de 42 anos de cinema (sem falar no período de formação pre-64) eu já não tenha mais tanta paciência para circular e estou cada vez mais querendo produzir uma coisa atrás da outra – o tempo parece cada vez mais curto.
Tanto é assim que acabei a série “Chão de Fábrica” há uns 3 meses, depois de quase um ano de trabalho (a série está sendo transmitida pela TVT), estou enfiado até os cabelos na montagem do “Esquerda em Transe” (aliás ainda não acabei o “Esquerda” porque a série não me permitiu a necessária dedicação integral) e tenho pelo menos dois outros projetos na fila: “Economia Solidária” e “Sombras sobre o Continente”.
“Esquerda em Transe” é uma visão do impeachment da Dilma a partir da visão dos movimentos populares e das pessoas que estavam nas manifestações de rua a favor da Dilma e contra o impeachment. Por exemplo, a votação na Câmara dos Deputados (vergonhoso episódio) é toda contada a partir da multidão que se reuniu em Brasília diante do telão que reproduzia a sessão e é montada sobre as expressões e movimentos que acompanhavam cada voto.
Praticamente todo o material usado foi filmado por nós, com a equipe integrada aos movimentos populares. Além disso, a narrativa vai ao longo do filme buscando a alternativas de luta que se colocavam e, assim, destacando movimentos como o MTST (Movimento dos Trabalhadores sem Teto) e o Levante Popular da Juventude.
Embora a narrativa central seja o processo que leva ao impeachment, visto pelos movimentos populares, há uma segunda linha narrativa que discute o papel da esquerda nisso tudo, destacando principalmente seus erros. O que nos leva necessariamente à discussão de perspectivas, assunto no qual o filme assume claramente que não tem idéia o que deve ser feito, levantando varias opiniões e alternativas e deixando a questão em aberto.
Nesta discussão sobre o papel da esquerda no processo há a presença de algumas pessoas como a Marilena Chauí, o Guilherme Boulos, o Jessé de Sousa, o Stedile e alguns meninos do Levante. O filme se constrói na dinâmica entre as imagens de ação (manifestações, escrachos, discussões públicas, etc) e a intervenção dessas pessoas citadas, sempre buscando o conflito e nunca a reiteração.
Cabe portanto, dizer que o nosso filme tem lado, é frontalmente contra o impeachment e não está muito interessado nas manobras daqueles que vivem dizendo que “respeitaram a Constituição”. Como de resto todos os meus filmes, esse também está colado às lutas e aos interesses dos trabalhadores e critica todos os que, em algum momento se colocaram contra esses interesses, incluindo eventualmente críticas ao PT.
O filme não é “neutro”, não busca a “objetividade jornalística”, mas, longe de qualquer didatismo e discurso panfletário, busca entender em profundidade o que aconteceu com a esquerda nesses eventos recentes.

Bom, já me estendi demais. Me desculpe, mas estou naquela fase em que você come, dorme, sonha e não esquece do filme em nenhum momento.

grande abraço

seu leitor atento

Renato Tapajós

****FILMES SOBRE IMPEACHMENT

POR CARLOS ALBERTO MATTOS

Entre os não citados deve-se acrescentar

FILME MANIFESTO – O GOLPE DE ESTADO, de Paula Fabiano (SP)

Minha matéria sobre o filme:
Memória do golpe

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