PELA IGUALDADE DE GENERO NO CINEMA (PALESTRA DA SUECA ELLEN TEJLE)

*** PELA IGUALDADE

DE GÊNERO NO CINEMA

Na última

quinta-feira (06-04-17), o jornal

A Tribuna, da Baixada Santista, entrevistou a sueca ELLEN TEJLE, que visitou Santos para palestrar na Unimonte (universidade local), numa promoção do Coletivo Vermelha e da plataforma Mulheres do Audiovisual Brasil. Com apoio do Instituto Querô, da Unimonte e da Prefeitura de Santos.

www.mulheresaudiovisual.com.br

Eu não estava em Santos (estava em São Paulo, participando do Festival Melhores Filmes do CineSesc). Mas a matéria me deu muitas informações de grande valor. Destaco uma delas.

Foram emitidos (creio que de 2000 a 2016) certificados de produto brasileiro, pela Ancine, para 2.606 obras, sendo

889 documentários

756 ficções

547 videomusicais

211 variedades (???)

174 animações

29 reality shows.

Deste total, só 19% trazem assinatura feminina…. A população brasileira (200 milhões de habitantes) conta com 51% de mulheres e 49% de homens. A matéria de A Tribuna, assinada por Carlota Cafiero, começa lembrando o discurso da atriz Patricia Arquette, na noite do Oscar, quando foi premiada por “Boyhood – Da Infância à Juventude”. Abaixo, transcrevo notas de minha coluna na Revista de Cinema, publicadas poucos anos atrás, que também apresentam alguns momentos importantes momentos na luta das mulheres do cinema…….

****NA REVISTA DE CINEMA (2015)

TRÊS MULHERES

O Prêmio Almanaque deste mês vai para três cineastas que lançaram seus filmes nesta temporada: Anna Muylaert (“Que Horas Ela Volta?”, Joana Nin (“Cativas – Presas pelo Coração”) e Susanna Lira (“Damas do Samba”). Se estes três filmes fossem submetidos ao Teste Bechdel-Wallace (mais informações abaixo), nossas realizadoras seriam aprovadas com louvor. O longa de Anna conta com três protagonistas femininas (a doméstica Val, sua filha Jéssica e a patroa Bárbara), que discutem temas relevantes, trabalham ou estudam. Nenhuma delas vive em função de homem. E, ainda por cima, traz a assinatura, na direção de fotografia (cargo em que 99% dos profissionais são homens) da uruguaia Bárbara Alvarez (a mesma dos filmes de Lucrécia Martel). O documentário de Joana Nin seleciona sete mulheres livres que se apaixonam por homens encarcerados. E dedica todo seu olhar ao cotidiano, trabalho e dedicação destas “cativas” à realização de seus sonhos. Susanna Lira também nos encanta com suas mulheres. São compositoras, cantoras, passistas, porta-bandeira, carnavalescas e meninas que amam o samba. O filme nos presenteia com dois momentos sublimes: Dona Ivone de Lara, aos 94 anos, cantando à capela “Sonho Meu”, e Beth Carvalho imitando Clementina de Jesus num canto de escravo, acompanhando-se de movimento gestual (de mãos em especial) que nos transporta da ruiva botafoguense, vinda da classe média, para a memória que guardamos da preta e velha doméstica que se tornou uma das grandes forças de nossa música popular, desde o antológico show “Rosa de Ouro”.

WITHERSPOON & LAWRENCE

REVISTA DE CINEMA — As mulheres cineastas, produtoras e atrizes pareciam esquecidas do quanto são discriminadas na indústria do cinema, dominada historicamente por homens. Até que, na entrega do Oscar, este ano (2015), a atriz e produtora Reese Witherspoon, premiada pela Academia por sua June Carter (“Johnny & June”), resolveu mostrar o quão inteligente é. E o muito que tem a dizer. Ela disputava o Oscar de melhor atriz por “Livre” (Wild), filme que a tem como protagonista e produtora. Cercada por repórter de TV que queria saber a griffe de seu vestido, ela protestou: por que às mulheres a imprensa só dirigia este tipo de pergunta? Afinal, ela tinha o que dizer como atriz e produtora. A declaração de Reese teve imensa repercussão. Até a poderosa Meryll Streep fez coro ao justo protesto. Outro episódio – a invasão dos arquivos digitais da Sony Pictures – mostrou que os salários dos homens da indústria cinematográfica eram muito superiores aos das mulheres. Uma jovem e festejadíssima atriz da Hollywood contemporânea, Jennifer Lawrence (Oscar por “O Lado Bom da Vida” ), desbocada como ela só, desabafou: “Quando aconteceu o vazamento e eu soube como estava ganhando menos que os caras com pintos, não me irritei com a Sony, me irritei comigo mesma”. As duas estrelas de Hollywood adotaram atitudes corajosas e capazes de mostrar que elas estão em sintonia fina com as ideias de Alison Bedchel & Liz Wallace, que emprestaram seus nomes ao Teste Bechdel-Wallace.

TESTE BECHDEL-WALLACE

No Brasil, a questão feminina no cinema ganhou grande relevo em agosto passado, no Recife, onde Anna Muylaert deveria debater “Que Horas Ela Volta?” com o público que lotava o cinema da Fundação Joaquim Nabuco. Só que dois de seus amigos, os cineastas Cláudio Assis e Lírio Ferreira, em avançado estado etílico, perturbaram de tal forma o ambiente, que a noite foi dada por perdida. Só que, desta vez, houve firmes protestos e a Fundação Joaquim Nabuco decidiu punir os dois cineastas mantendo-os longe de sua sede física, por prazo de um ano. O protesto motivou significativo debate na mídia e Anna Muylaert afinou seu discurso no diapasão feminista. Viu no gesto dos amigos ranço machista. Sentiu que os dois ficaram incomodados em vê-la, uma mulher, no centro das atenções. A discussão entrou para valer em nossa pauta cinematográfica. O que é ótimo. E partimos, agora, para o Teste Bechdel-Wallace. Trata-se, para quem não sabe, de questionário que estudiosos aplicam ao analisar um filme de ficção: tal obra apresenta pelo menos duas mulheres que conversam entre si sobre algo que não seja um homem? A narrativa adiciona pelo menos duas personagens femininas que tenham nome? Há outras questões no foco do questionário. As pesquisas mostram que muitas obras (contemporâneas!) falham neste teste, o que resulta em indicativo de preconceito de gênero. O nome do teste presta homenagem à cartunista norte-americana Alyson Bechdel, pois em 1985, personagem de seus quadrinhos “Dykes to Waltch out For” externou tais preocupações. Alyson dividiu o crédito com a amiga Liz Wallace, que lhe sugerira o questionamento. O teste foi originalmente criado para avaliar filmes, mas é aplicado a variadas mídias. Também é conhecido como a Regra de Bedchel, Lei de Bechdel ou Medida de Filme MO (Mo Movie Measure)”.

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