Carta de Berlim

Leia a carta na íntegra :

“O Brasil está vivendo uma crise constitucional. Sob esse governo ilegítimo, direitos adquiridos nas áreas da educação, saúde, e trabalho estão sob ataque. O cinema brasileiro, especialmente o de autor, está particularmente ameaçado por esses ataques. A diretoria da Ancine (Agência Nacional de Cinema) está agora em processo de substituição de dois de seus quatro membros, e muita coisa está em jogo com essas nomeações.

O Brasil tem orgulho de ser uma gigantesca fusão étnica, racial, cultural, religiosa e de gênero. A consciência dessa pluralidade é fundamental na hora de planejar os programas educacionais, econômicos, culturais e de saúde do nosso país.

As políticas de cinema e outras artes visuais têm muita consideração por esse fator. Nos últimos anos, a Ancine tem direcionado sua atenção a esses muitos Brasis, ampliando os mecanismos de fomento, que hoje atingem segmentos diversos, do cinema autoral ao videogame; das séries de TV aos filmes com perfil comercial; do desenvolvimento de roteiro à distribuição de uma variedade de trabalhos culturais.

Os resultados são visíveis. Em 2017 filmes brasileiros conquistaram uma participação expressiva em festivais internacionais, totalizando 27 participações em Sundance, Rotterdam e Berlim. Muito planejamento e diálogo contínuo entre a Ancine e os profissionais do cinema foram necessários para alcançar essa conquista. Duas políticas específicas que resultaram desse esforço devem ser destacadas:

Primeiro, a criação da lei que prevê que os canais de TV a cabo exibiam um mínimo de 3 horas e meia de programação brasileira durante o horário nobre. Segundo, o estabelecimento do Fundo Setorial do Audiovisual, que gerou investimentos para diferentes trabalhos em vários níveis de desenvolvimento. Entre as conquistas do Fundo, está a descentralização da produção no cinema – longe do eixo Rio-São Paulo -, o renascimento da programação da TV pública, a produção de filmes de alcance internacional bem como co-produções internacionais.

Como resultado dessas ações, o crescimento do setor audiovisual alcançou 8,8% em 2016, um número muito maior do que a economia brasileira em geral, gerando um valor agregado de 0,54% no PIB nacional (essa contribuição é maior do que, por exemplo, as indústrias farmacêutica, de TI ou eletrônica).

O progresso ainda deixa muito espaço para melhorias, como políticas afinadas para gerar um impacto maior na representação racial e de gênero, bem como para permitir que uma amostra mais inclusiva da população esteja envolvida na cadeia de produção. Outra melhoria muito necessária é um maior investimento no sempre crescente acervo audiovisual do país, para melhorar tanto o acesso quanto a conservação.

Nós chegamos tão longe graças ao esforço conjunto de servidores públicos, produtores, diretores, distribuidores, exibidores, programadores, artistas e líderes sindicais, e precisamos proteger essas conquistas a todo custo. Sobretudo, queremos garantir que quaisquer mudanças nessas políticas sejam debatidas abertamente no setor e na sociedade brasileira como um todo.

Assim, pedimos às instituições, produtores e cineastas de todo o mundo por apoio à nossa luta para proteger essas políticas. Nós acreditamos fortemente na continuidade e na força dessa visão comum que nos trouxe até aqui, e acreditamos com firmeza que ela pode nos levar ainda mais longe.

Assinam essa carta os produtores

e diretores dos seguintes filmes:

As Duas Irenes (Fabio Meira, Diana Almeida and Daniel Ribeiro)

Como Nossos Pais (Laís Bondaznky and Luiz Bolognesi)

Em Busca da Terra Sem Males (Anna Azevedo)

Está Vendo Coisas (Barbara Wagner and Benjamin de Burca)

Joaquim (Marcelo Gomes and João Vieira Jr.)

Mulher do Pai (Cristiane Oliveira, Graziella Ferst and Gustavo Galvão)

Não Devore Meu Coração! (Felipe Bragança and Marina Meliande)

Pendular (Julia Murat and Tatiana Leite)

Rifle (Davi Pretto and Paola Wink)

Vazante (Daniela Thomas and Sara Silveira)

Vênus – Filó a Fadinha Lésbica (Sávio Leite)”

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