****FEST ARUANDA 2016 – ABAIXO, UM BREVE COMENTÁRIO SOBRE A PREMIAÇÃO DO JURI OFICIAL. ***NA foto abaixo, de minha autoria (Rô Caetano), estão a cineasta Eliane Caffé e o ator José Dumont, de ERA O HOTEL CAMBRIDGE (ELEITO O MELHOR FILME PELO JURI OFICIAL E PELA CRITICA), na noite em que apresentaram o filme ao público do Fest Aruanda 2016, em Jampa, Paraíba.

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***FEST ARUANDA 2016

CONSAGRA CINEMA FEMININO
(ELIANE CAFFÉ E LEANDRA LEAL)
E O CURTA-METRAGEM “QUANDO
PAREI DE ME PREOCUPAR COM CANALHAS”

Por Maria do Rosário Caetano

João Pessoa (Paraíba) — O júri do Fest Aruanda 2016 compôs-se com os cineastas Vladimir Carvalho, Ariane Porto e Teresa Aguiar. O primeiro, documentarista paraibano-brasiliense, dos mais experientes, é autor do curta A Pedra da Riqueza e dos longas “O País de São Saruê”, Conterrâneos Velhos de Guerra, O Engenho de Zé Lins, “Cícero Dias, o Compadre de Picasso”, entre outros. Ariane, professora da Unicamp, dirigiu três longas (A Ilha do Terrível Rapaterra, Topografia de Um Desnudo e “O Crime da Cabra”). Este é fruto de recriação livre de peça homônima, e premiada, de Renata Pallottini. A realizadora convocou para seus três filmes, o ator Lima Duarte (e grandes elencos). Teresa Aguiar, diretora de teatro, só chegou aos cinema aos 75 anos. Em “O Crime da Cabra”, ela assina a direção de atores e a co-direção. É, portanto, parceira fundamental de Ariane em “O Crime da Cabra”, produzido como “um filme- escola”, o primeiro apoiado pela Unicamp.
O que esperar de júri tão compacto e situado por inteiro na chamada “melhor , ou terceira, idade”? O resultado foi surpreenndente e espantosamente bom.
A escolha de “Era o Hotel Cambridge”, de Eliane Caffé, como melhor filme foi perfeita e ousada (e confirmada pelo Juri Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema). O prêmio de melhor direção para Leandra Leal foi inquestionável. A atriz estreou como diretora de “Divinas Damas” esbanjando segurança e paixão. Seu documentário é um fascinante mergulho no universo das mais famosas travestis brasileiras, de Eloina dos Leopardos a Rogéria, que se auto-define como “a travesti da família brasileira”. O Juri Popular, que consagrou este filme, já demonstrara, no dia de sua exibição, que era o franco favorito. “Divinas Damas” teve a maior lotação do festival (gente sentada nas escadas de um dos cinemas da rede Cinépolis) e recebeu os aplausos mais calorosos. E muita gente seguiu na sala, já tarde da noite, para debatê-lo com a diretora estreante.
A premiação, exposta abaixo, cometeu — na minha opinião — dois desatinos. O principal, e mais grave, tem a ver com a premiação de Maria Manoela como atriz coadjuvante (por “Vermelho Russo”). Primeiro, ela é co-protagonista do filme, ao lado de Martha Nowill. Além de atriz, Martha desempenhou a função de co-roteirista e co-produtora. E de alma do filme, nascido de páginas de diário escritas por ela sobre viagem de estudos a Moscou e publicadas na revista Piauí). Infelizmente, o juri não mostrou sensibilidade na recepção deste filme, uma deliciosa e inteligente comédia sobre as agruras de duas atrizes brasileiras em busca de aperfeiçoamento na Rússia de Tchekov, Dziga Vertov e Eisenstein. Se tivessem prestado mais atenção ao filme, não teriam ofendido Martha Nowill como (creio que involuntariamente) o fizeram. Durante todo o filme, a personagem de Martha sofre com as comparações com a personagem de Maria Manoela (“a bonita, a magra, a disputada pelos homens”). Ao optar por Manoela (ótima atriz, assim como Martha) o júri reforçou o, digamos, preconceito contra a atriz “menos bonita e mais cheinha”. Para agravar, Martha Nowill estava em João Pessoa e buscou o Trofeu Aruanda pela colega ausente. Um grupo de jornalistas chegou a conjecturar que houvera troca de nomes, mas não houve. Os três jurados entenderam que “Martha era protagonista e Manoela, coadjuvante”.
A atriz premiada, a veterana Suely Franco, está magnífica em “Era o Hotel Cambridge” (e sua voz de cantora lírica é arrebatadora). Mas seu papel é pequeno, pois estamos num filme coral, em que Suely & José Dumont interagem com dezenas de sem-teto e de refugiados palestinos, colombianos e africanos. Claro que uma atriz pode roubar a cena numa participação que dure 15 ou 20 minutos (caso de Marília Pera, em “Pixote, a Lei do Mais Fraco”). E Suely está, repito, magnífica no filme de Lili Caffé (mesmo caso da impressionante líder sem-teto Carmem Silva, até premiada no Festival Cinema da Fronteira). O que registro aqui é a “deselegância” do gesto dos três jurados.
Se Marta & Manoela fossem premiadas juntas com o trofeu de melhor atriz seria perfeito, pois as duas jogam um bolão. Suely Franco poderia ter sido escolhida melhor atriz coajuvante.
O outro desatino do juri foi atribuir a “Canastra Suja” o prêmio de melhor roteiro (escrito pelo diretor Caio Soh). O cineasta de 38 anos já está em quarto longa (Teus Olhos Meus, Minutos Atrás, Por Trás do Céu e Canastra Suja) e vem se revelando um bom diretor de atores (ele vem do teatro, com breve carreira de ator e opção real pela dramaturgia e direção teatral). Justíssimos os prêmios para Marco Ricca (ator) e Pedro Nercessian (coadjuvante). Já o roteiro é o ponto mais questionável do filme. O diretor, que monta um jogo cinematográfico (o da canastra suja), abusa do arbítro e do artifício ao estruturtar sua história. Como um manipulador de marionetes (deus ex-machina), ele sufoca a subjetividade de seus personagens (títeres), para impor (de cima) soluções improváveis, inverossímeis. E, o que é pior, reforça o estereótipo do negro como “predador sexual”. *** A premiação de curtas foi notável. Muito criteriosa.

**** LISTA DOS PREMIADOS:

LONGA-METRAGEM:

. “ERA O HOTEL CAMBRIDGE” : melhor filme pelo Juri Oficial e pela Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), melhor atriz (Suely Franco)

. “DIVINAS DIVAS”: melhor diretora (Leandra Leal) pelo júri oficial, melhor filme segundo o Juri Popular.

. “CANASTRA SUJA”: melhor ator (Marco Ricca), melhor roteiro (Caio Soh), mlhor ator coadjuvante (Pedro Nercessian) e melhor som.

.”DESERTO”– melhor fotografia (para o português Ruy Poças) e melhor direção de arte (Renata Pinheiro).

. “SILÊNCIO NO ESTÚDIO”: melhor montagem e melhor trilha sonora.

. VERMELHO RUSSO: melhor atriz coadjuvante (Maria Manoela).

. CURTA-METRAGEM:

. QUANDO PAREI DE ME PREOCUPAR COM CANALHAS (SP): melhor
filme pelo júri oficial, pela crítica e pelo público, melhor ator (Matheus Nachtergaele)

. CUMIEIRA (PB): melhor curta paraibano, melhor montagem e melhor som.

. LÁ DO ALTO (RJ): melhor diretor (Luciano Vidigal) e melhor trilha sonora.

. O HOMEM QUE VIROU ARMÁRIO (CE): melhor atriz (Andrea Pires),
roteiro (Marcelo Ikeda) e melhor direção de arte.

. STANLEY (PB): melhor fotografia

********FEST ARUANDA 2016 — NOITE DE PRÊMIOS

Duas realizadoras — a paulista Eliane Caffé e a carioca Leandra Leal — conquistaram os principais prêmios do XI Festival Aruanda do Audiovisual Brasileiro.

“Era Hotel Cambridge”, de Eliane Caffé, foi escolhido o melhor filme pelo Juri Oficial e pela Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e teve a veterana Suely Franco eleita melhor atriz.

O documentário “Divinas Divas”, estreia da atriz Leandra Leal na realização, rendeu a ela o Trofeu Aruanda de melhor diretora (pelo júri oficial) e o Prêmio de melhor filme segundo o Juri Popular.

O longa ficcional “Canastra Suja”, de Caio Soh, ganhou os trofeus Aruanda de melhor ator (Marco Ricca), melhor roteiro (Soh), ator coadjuvante (Pedro Nercessian) e melhor som. “Deserto”, estreia do ator Guilherme Weber no longa-metragem, venceu nas categorias melhor fotografia (para o português Ruy Poças) e melhor direção de arte (a pernambucana Renata Pinheiro).

O documentário carioca “Silêncio no Estúdio”, de Emília Silveira, que registra a trajetória da apresentadora Edna Savaget (1928-1998), conquistou os prêmios Aruanda de melhor montagem e melhor trilha sonora. “Vermelho Russo”, de Charly Braun, ganhou o Aruanda de melhor atriz coadjuvante (Maria Manoela).

No terreno do curta-metragem, deu-se a consagração do paulistano “Quando Parei de me Preocupar com Canalhas”, de Tiago Veira, que fez a “tríplice coroa”: melhor filme pelo júri oficial, pela crítica e pelo público. O filme ganhou, ainda, o Trofeu Aruanda, de melhor ator (para Matheus Nachtergaele, magnífico na pele de um cidadão paulistano atormentado por muitos “canalhas” e, em especial, por taxista malufista, interpretado por Paulo Miklos).

O melhor curta paraibano foi “Cumieira”, de Diego Benevides, que somou, ainda, os trofeus de melhor montagem e melhor som. O curta carioca “Lá do Alto”, rendeu o trofeu de melhor diretor a Luciano Vidigal e sua trilha sonora também foi premiada. O curta cearense “O Homem Que Virou Armário”, de Marcelo Ikeda, ganhou o Aruanda de melhor atriz (Andrea Pires), roteiro (Ikeda) e melhor direção de arte. O Aruanda de melhor fotografia coube ao curta paraibano “Stanley”, de Paulo Roberto.

O Festival distribuiu prêmios, também, para produções de TVs Universitárias (ver tabela desta categoria no final desta remessa). Na foto anexa, participantes de todas as mostras do Festival, que atenderam a convite da cineasta Eliane Caffé, para que “todos festejassem coletivamente”. E não só os vencedores. A diretora de “Era o Hotel Cambridge”, filme que coloca dois atores profissionais (a premiada Suely Franco e José Dumont) em uma ocupação comandada por movimentos de trabalhadores sem-teto, pediu que a competição deixe de ser a razão dos festivais. O filme, um docfic dos mais ousados e criativos, Suely Franco e Zé Dumont contracenam, além de lideranças dos Sem-Teto, com refugidos vindos da Palestina, Congo e outros países conflagradas por guerras.

**** Antes da premiação, a atriz Darlene Glória, que participa, no sertão paraibano, das filmagens de “Beiço de Estrada”, de Eliezer Rolim (ao lado de Mayana Neiva e Jackson Antunes), saudou o amigo Antônio Pitanga, tema do documentário “Pitanga”, de Beto Brant & Camila Pitanga. O filme foi calorosamente aplaudido pelo público e o assédio ao ator, no final da noite, foi total. Ele e Darlene posaram para centenas de selfies.

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