AFRICA(S): CATALOGO, MURILO SALLES, RUY
GUERRA, ROUCH, GODARD E GUEL ARRAES

+ CATÁLOGO DA MOSTRA
AFRICA(S) – CINEMA E REVOLUÇÃO

* VINTE DE NOVEMBRO — Estamos no Mês da Consciência Negra. Neste domingo, vamos comemorar o VINTE DE NOVEMBRO, Dia de Zumbi (e por extensão, Dia da Consciência Negra). Hoje, no CCBB-SP, começa a Mostra Pérola Negra, sobre a longa e produtiva carreira da atriz RUTH DE SOUZA, de 95 anos, organizada por Breno Lira Gomes. *****E quinta-feira passada começou, no Cine Belas Artes, a Mostra “Africa(s): Cinema e Revolução” (As Independências de Angola, Guiné-Bissau e Moçambique, em Filmes de Luta e Memória), com curadoria de Lúcia Ramos Monteiro e produção de Natália C. Barrenha. Como eu estava em Santos, perdi os 4 primeiros dias do evento. Ontem, segunda-feira, 14 de novembro, fui ao Cine Belas Artes ver os filmes, pegar a programação impressa da Mostra (detesto ver longas programações no computador). Como tinha compromissos à noite, comprei dois ingressos vespertinos (R$10,00 a inteira e R$5,00, a meia. E pacotes a 30 reais, com direito a excelente catálogo). Aguardava a hora do início do filme esperando o chá derreter numa chávena…
****QUE CATÁLOGO!!!! — Foi aí que reparei que um rapaz, ao meu lado, trazia no braço um volume grosso, com a mesma capa do cartaz de “África(s)”. Ele me confirmou que era o catálogo da Mostra. Perguntei onde o conseguira. Ele me contou que ganhara o volume (de 200 páginas) ao comprar o passaporte para assistir a todos os filmes programados. E mais: quem comprasse três ingressos, ganhava o catálogo de graça… Larguei o chá naquela bancada central do Belas Artes e corri para comprar o terceiro ingresso e pedir meu catálogo. Quando regressei à “bancada-mesa” do saguão do cinema, o rapaz, gentilmente, me esperava, mesmo que a sessão estivesse para começar (o longa ficcional “O Vento Sopra do Norte”, de José Cardoso). “Fiquei cuidando do seu chá”, me disse. Mostrei o catálogo para ele e agradeci, com muita ênfase. Engoli o chá e corri para
o cinema, sem tempo de folhear o catálogo. Assisti ao segundo programa (“Makwyela”, curta de Jean Rouch, com alunos moçambicanos) e “Estas São as Armas”, documentário de Murilo Salles (1978), do período em que ele, a exemplo de Ruy Guerra, Godard, Rouch e outros artistas foram ao país africano participar do esforço de se construir, lá, uma “indústria” audiovisual. Finda a sessão (que contou com ótimo público e aplausos) regressei para casa com a firme decisão de convencer o grande fotógrafo e cineasta MURILO SALLES a revistar, cinematograficamente, sua experiência moçambicana…
* GODARD & GUEL ARRAES — Vim folheando o catálogo no metrô. Que maravilha. Uns 20 artigos — (a maioria de mestres e doutores em Cinema, História, etc) — estudam o filme de Murilo Salles (por Robert Stock, da Universidade de Konstanz/Alemanha), a obra moçambicana de Ruy Guerra (que eu imaginava reduzir-se ao longa MUEDA, mas que soma mais três títulos — por Vavy Pacheco Borges, da Unicamp), o Colonialismo no cinema, o longa “25”, de Celso Luccas & Zé Celso Martinez Corrêa, o Cinema de Santiago Alvarez (feito em Moçambique), etc, etc, etc.
Ao chegar em casa, mostrei a Zanin o catálogo e pedi que ele procurasse, no espaço digital, KUXA KANEMA, o documentário da portuguesa Margarida Cardoso, que eu vira numa Jornada da Bahia, e que não poderia rever na tela grande, pois fora já exibido na Mostra AFRICA(S). Zanin localizou o filme e fomos assisti-lo. Quando chegou a parte de Godard em Moçambique, mostrada com uma série de fotos, vi ao lado dele, num relance, um rapaz magro e alto: “é o Guel Arraes”, exclamei!!!. Mas acrescentei: “não deve ser, pois tempos atrás, mandei um e-mail para ele, pedindo uma entrevista para a Revista de Cinema, na qual, entre outros temas, falaríamos dos tempos em que ele trabalhou com Godard. Guel não quis dar a entrevista e não colocou nenhuma ênfase na experiência com Jean-Luc Godard. Deu até a entender (a mim pelo menos!!!) que pouco (ou nada) tinha a dizer sobre assunto. Se interpretei bem — volto a dizer — Guel não queria tirar nenhum proveito de sua experiência com Godard. *****Por isto, disse a Zanin: “até hoje não sei se Guel Arraes conviveu mesmo com Godard”… Estava folheando com mais calma o Catálogo de AFRICA(S) quando Zanin chegou com a imensa biografia de Godard (escrita por Antoine de Baecque e ainda não traduzida no Brasil) — aberta na página 564. E lá
está, escrito com todas as letras, no idioma de Jean Renoir: que Godard, em sua experiência moçambicana, trabalhou com Miguel Arraes (ou seja, com Guel Arraes, o filho do exilado político Miguel Arraes, deposto do Governo de Pernambucano pelo Golpe de 1964). *** No filme KUXA KANEMA, ficamos sabendo que Godard levou ao Governo de Moçambique, em 1978, um projeto de Contra-TV, intitulado “Nascimento da Imagem de Uma Nação”, que seria implantado em Lichunga (uma província?), mas que o ministro da Informação, José Rebelo, achou o projeto “muito insólito” e não o aprovou. Quem conta isto, no filme lusitano, é José Luís Cabaço (importante quadro do Ministério da informação), que nesta quarta-feira, 16 de novembro, participa de debate, no Belas Artes, com Ruy Guerra, Rita Chaves, Camilo de Souza e Isabel Noronha, às 16h00.
* NASCIMENTO DO CINEMA — Mais algumas informações sobre KUXA KANEMA (que significa Nascimento do Cinema): o filme, realizado em 2003, numa parceria Portugal, Moçambique, França e Bélgica, reúne depoimentos de Camilo de Sousa, Ruy Guerra, Gabriel Mondlane, José Cardoso, Carlos Jambo (cinegrafista que foi o cicerone de Godard em sua aventura moçambicana), J.L. Cabaço, Isabel Noronha e do brasileiro Licínio Azevedo. Dura 52 minutos, é crítico (mostra como a guerra contra a Revolução Moçambicana (1975), movida por forças da reação a partir da Rodésia e da África do Sul/apartheid minou o projeto do “Kuxa Kanema – nascimento do cinema”).
O fim do “sonho” chegou para valer quando suspeito acidente aéreo matou o líder revolucionário Samora Machel, em 1986. Ele regressava de uma viagem à Zâmbia. Hoje, da sede do INC (Instituto Nacional de Cinema), instrumento de tantos projetos (e de centenas de edições do cinejornal Kuxa Kanema) só restam as paredes. E documentos fílmicos (a maioria em 35 mm) estão ameçadíssimos de desaparecimento.

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