FRANCIS VALE RESPONDE A COMENTÁRIO SOBRE “TREM DA ALEGRIA “(AFONSINHO)

+ TREM DA ALEGRIA,

FILME DE FRANCIS VALE

Resposta e esclarecimentos de Francis Vale, um dos criadores do
CineCeará e diretor do Festival de Jericoaquara, no litoral cearense,
a respeito de comentário que registrei, no Almanakito, sobre o
longa por ele dedicado à relação entre Futebol e MPB, no
“Trem da Alegria”, movimento criado pelo ex-jogador Afonsinho.

POR FRANCIS VALE:

Rosário,

Li seu comentário sobre o documentário
“Trem da Alegria – Arte, Futebol e Ofício”.
Acho que você tem razão nas suas observações.
O filme é amador. Foi feito por amor. Não é o filme
que gostaríamos de fazer. Foi o filme POSSÍVEL de fazer.
Imagens de época? pesquisamos em todas as emissoras do Rio.
Nada encontrado. Mesmo na Imprensa, muito pouco registro.
O que foi encontrado, está lá.
Financiamento? Zero. O projeto foi aprovado no
MinC para ser um média metragem. Duas vezes. Captação: Zero.
Quem acreditava no filme? Eu e Afonsinho. Cinco anos de trabalho,
custeando do próprio bolso passagens, hospedagem,
alimentação etc. com equipe mínima, com remuneração simbólica.
Viagens de Fortaleza ao Rio, São Paulo, Salvador etc.
A ausência da música do Gil e de outras se deve ao problema
de recursos para os direitos autorais. Além do mais, ela já
estava muito presente no filme do Caldeira (do qual citamos um
pequeno trecho do Pelé no Maracanã). Preferimos fazer uma sutil
citação musical antes dos depoimentos do Afonso.
Estou consciente de todos os defeitos do filme. Mesmo assim,
com toda a precariedade, preferimos lançá-lo nos 40 anos do time,
antes que a maioria de seus integrantes se vá. Como já aconteceu
com Garrincha, Nilton Santos, Marcolino, Dedé, Marciô e
outros pouco conhecidos que não conheci.
A falta de imagens de época se deve ao fato de a
mídia olhar o movimento com desconfiança, assustada
com a censura e a repressão.
Pra mim, o mérito do filme é contar uma história
conhecida de poucos e que nenhum cineasta
carioca (lugar de origem do time) se dispôs a contar.
Há redundâncias? Sim. Fatos presentes em mais de
um depoimento, com o propósito de ratificar a versão do
acontecimento.
Depois de pagar o resto das dívidas, é possível que
façamos nova edição. A que ficou, como já disse foi a
possível, feita às pressas para atender a compromissos
como a 40a. Mostra.
Agradeço suas observações pertinentes. Dou essas
explicações até porque todas as pessoas do
ramo (como você) haverão de perceber
as deficiências do filme.
No mais, é bola pra frente. Espero que alguém
retome essa história com melhores condições.
Assim como parti de onde ficou o filme do
Caldeira (“Passe Livre”) , alguém pode ter outras
histórias que não sabemos ou não pudemos contar.
Um abraço do
Francis

+ O TREM DA ALEGRIA
DE AFONSINHO —
Finalmente assisti ao documentário cearense “Trem da Alegria – Arte Futebol e Ofício”, de Francis Vale (tentara ver o filme no CineSesc, mas naquele justo dia faltara luz). O tema é dos mais promissores: futebol e MPB. O mestre de cerimônia: o ex-jogador e médico Afonsinho, cantado por Gilberto Gil e registrado por Oswaldo Caldeira num clássico do documentário brasileiro (“Afonsinho Passe Livre”, 1974). E o que foi o Trem da Alegria, do qual eu nunca ouvira falar? Foi um movimento criado por Afonsinho (se entendi bem, em 1975), para unir jogadores sem clubes e contratos a grandes nomes da MPB (Paulinho da Viola, Novos Baianos, em especial Moraes Moreira e Galvão; Fagner, Abel Silva, Capinam, etc). Juntos, eles saíriam (boleiros e cantores) pelo país, promovendo, durante o dia, jogos com Veteranos ou times das cidades visitadas e, à noite, fazendo shows. O projeto viveu seus melhores momentos na USP, numa excursão pelo Nordeste (Fortaleza, Recife e João Pessoa), no Rio e até em Angola, na África. Afonsinho, o ser humano mais gregário e arregimentador que nosso futebol já conheceu, usava (parece que continua usando, em Paquetá, onde atua como médico) sua fama e generosidade para atrair craques como Nilton Santos, Ney Conceição, etc, para as excursões do Trem da Alegria (Trem, porque, filho de ferroviário, Afonso adorava locomotivas, e Alegria em homenagem a Garrincha, a alegria do povo). Até o capitão Carlos Alberto participou de uma partida afonsínica. ***A proximidade com astros da MPB (em especial com os boleiros dos Novos Baianos, que mantinham um campo no sítio de Jacarapaguá) fazia parte da vida do único detentor de “passe livre” no Brasil. Até hoje ele é louco por samba e MPB. Quando um músico passava por momento difícil, ia dormir no apartamento carioca de Afonsinho (foi o caso de Fagner e de Moraes Moreira, quando separou-se dos Novos Baianos). ***E o que Francis Vale faz com esta bela história? Faz um filme amador, com som precário (ainda bem que ele legendou o filme inteiro) e imagens descuidadas (como aquelas de vídeos caseiros). Os depoimentos são enquadrados de forma descuidada e a montagem quer aproveitar tudo. Aí a redundância toma conta da narrativa. E não há imagens de arquivo para enriquecer o documentário (o filme deve ter sido feito só na paixão, sem orçamento). Se bem editado, o material daria um média-metragem. Mas dura 83 minutos. (No banheiro do CineSesc, duas senhoras comentavam o documentário cearense: por que o diretor não arrumou imagens da época para o filme ficar menos monótono? A outra concordou e acrescentou: esperei até o final que ele colocasse a música do Gil para tocar. Sabe, aquela que fala “Prezado amigo Afonsinho, eu continuo aqui mesmo”. (Nenhuma delas lembrou o nome da música, mas conheciam a letra. Trata-se de “Meio de Campo”, pois Gil também é boleiro).

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