JEAN TULARD E BELLOCCHIO + FAMILIA, SEXO,
RELIGIÃO, POLÍTICA … E LOUCURA.

NA foto abaixo, Bellocchio com
Renata Almeida, diretora da Mostra SP

***JEAN TULARD & BELLOCCHIO — Consulto, com imensa frequência, o Dicionário de Cinema – Os Diretores, de Tulard, traduzido e complementado, no Brasil, pelo gaúcho Goida e publicado pela L&PM. Foi neste Dicionário que li, com todas as letras, que “No Tempo das Diligências” era inspirado em “Bola de Sebo”, de Maupassant. Foi nele, também, em sua estranha dedicatória, que li o seguinte fecho de dedicatória: … “a Buster Keaton, que se matou no banheiro de um restaurante por não ter dinheiro para pagar a conta”. Mas volto a Tulard por causa de Bellocchio, o grande diretor peninsular, de quem revi alguns filmes amados e conheci outros (A Hora da Religião, A Intrusa e A China Está Próxima). No excelente verbete dedicado a Bellocchio, Tulard diz que a obra-prima dele é “Nel Nome del Padre”, de 1970. O último filme do italiano analisado pelo historiador e cinéfilo Tulard é O Processo do Desejo (La Condana, de 1991). O Dicionário foi publicado no Brasil em 1996. E o que diz Tulard sobre a obra de “Processo do Desejo”??? Diz que este filme “trata do problema do estupro com muita ambiguidade”. E encerra seu verbete de apenas 22 linhas como terrível vaticínio: “O esgotamento de Bellocchio é visível”. Naquele momento, o cineasta estava de tal forma “tomado” pelo psicanalista Massimo Fagioli (com quem concebeu O Diabo no Corpo, O Processo de Desejo e Il Sogno de la Farfalla, este visto em Gramado, nos tempos em que Walter Hugo Khouri era curador do festival serrano), que sua carreira nos deixava perplexos. O tempo passou e, a partir de “Bom Dia, Noite”, o cineasta pensinsular renasceu, maduro, ousado, profundo… Faria depois o belíssimo “Vincere”, que a Cahiers du Cinéma elegeria, junto com “Ervas Daninhas”, de Resnais, os dois melhores filmes de 2008 (ou 2009). E Bellocchio, aos 76 anos, segue realizando grandes filmes. Vive uma fase muito boa. (E parece que vai filmar a vida do mafioso Buschetta, no Brasil, pois ele viveu aqui e até se casou com uma mineira). **** Para mim, o momento mais luminoso — repito — da Mostra SP foi a Mostra Bellocchio, enriquecida com dois debates com ele. Depois de ver e rever os filmes programados, constatei que além de família, sexo, religião e política, Bellocchio tem outra fixação temática: a loucura. Em praticamente todos os filmes dele (em maior ou menor grau) há alguém perturbado. Em “A Hora da Religião”, um filho louco mata a mãe, num acesso de fúria. E a Igreja quer beatificá-la, quem sabe santificá-la… Em A Intrusa (A Ama de Leite, no original), a personagem de Valeria Tedeschi-Bruni tem um filho e o rejeita. Se nega a dar o peito a ele, a tocá-lo, a olhá-lo. A amante de Mussollini, Ida Dalser, é internada como louca em “Vencer”. “De Punhos Cerrados” é um catálogo de males da mente. Em “O Diabo no Corpo”, a personagem da (holandesa) Maruschka Detmer é “totalmente fora da casinha”…….

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