***** A “PRAGA” DE JOÃO ANTONIO….
 
       ******SESSÕES LOTADAS NA
       REPESCAGEM DA MOSTRA SP 40
         Continuo dedicando boa parte da minha vida à
Mostra SP Ano 40, agora em fase de repescagem. Ontem (04-11-16), no CineSesc, revi “O Quarto Homem” (16h40), do holandês Paul Verhoeven, com sala praticamente cheia, e “Diário de Um Maquinista” (18h40), indicado ao Oscar pela Sérvia (com lotação esgotada). A sessão seguinte — “Elle”, filme francês de Verhoeven, com a grande Isabbelle Huppert — esgotou também sua lotação. Como já tínhamos visto este filme, Zanin e eu sentamos num boteco na Augusta, bem perto do CineSesc, para um lanche. Enquanto esperávamos, uma jovem entrou no local e nos perguntou:
por que não há mais ingresso? O que está acontecendo?? Atordoados, esboçamos uma justificativa: o filme anterior era o indicado da Sérvia ao Oscar e deve ter dado um bom boca-a-boca (a corrosiva comédia, temperada com humor negro de Milos Radovic, ainda tem no elenco a magnífica atriz-e-agora diretora de “A Boa Esposa” Mirjana Karanovic). Quanto ao sucesso de “Elle”, acrescentamos,
se deve ao furor que o filme vem causando e, claro, aos nomes de Huppert e Verhoeven… A moça foi embora desconsalada. E Zanin e eu tomamos o metrô e viemos para nossa “casa tomada”.
     ***A CASA TOMADA — Tomada por centenas de jornais e revistas espalhados nos últimos 26 dias, pois desde a coletiva da
Mostra SP 40, que vivo mais no cinema que em qualquer outro lugar. Desconsolado, Zanin pediu: “jogue estes jornais fora, a casa está bagunçada demais, inóspita…”. — Como, se ainda não li???!!!.
— “Você não vai ler, pois novos exemplares vão chegar…”.
Olhei aqueles montes esparramados e prometi começar a seleção do que ficaria para leitura e do seria descartado. O primeiro caderno salvo foi uma capa de O Globo (31-10-16), com enorme matéria sobre os 20 anos da morte do escritor João AntônioOutro (Estadão, 29-10-16) trazia crônica de Sérgio Augusto intitulada “E o Rio Virou Cannes”). Por alguma razão, meu olhar fixou-se no final
da primeira coluna e vi o nome Marco Bellocchio (quem lê o Almanakito sabe que boa parte de minha entrega à Mostra SP consistiu em ver ou rever filmes do diretor peninsular, além de ir aos dois debates com ele e — até — fazer uma pergunta ilustrada ao criador de Vincere e Belos Sonhos).
       *** SINGER & LOUREIRO – Li alguns textos atrasados na Folha de S. Paulo (matéria sobre o livro “As Contradições do Lulismo: A Que Ponto Chegamos?”, organizado para a Boitempo Editorial, por André Singer & Isabel Loureiro) e três páginas no caderno de Economia de O Globo (23-10-16) sobre a Indústria do Audiovisual, no Brasilque parece imune à crise econômica. Li, também, colunas atrasadas (muito atrasadas) no Valor Econômico, de Marcos Nobre (duas últimas segundas-feiras, uma delas, A centro-direita não tem pressa), César Felício e Fernando Limongi, este do Cebrap.
*** MARIA ALICE VERGUEIRO — Li, também, o perfil de Maria Alice Vergueiro, na Serafina (gostei muito, mas não entendi porque não citaram o curta brasiliense “Rosinha”, que ela protagonizou com os atores João Antonio e Andrade Jr e que rendeu a ela seus dois primeiros trofeus cinematográficos, no Fest Gramado e na Mostra Brasília. O crítico gaúcho Roger Lerina definiu o filme como “O Jules et Jim da terceira idade”). 
*** O MARECHAL DE COSTAS — Enquanto eu enchia a cama de jornais atrasados, Zanin fruia o livro “O Marechal de Costas”, do pernambucano José Luiz Passos, presente que ele ganhou da pernambucana Luciana Veras. E me olhava, de vez em quando, com um ar de resignada tolerância. Afinal, ele já me definiu como “a missionária da celulose e do celuloide” e sabe que sou um caso perdido…. Aí, fui ler a capa do Segundo Caderno de O Globo sobre João Antônio… Prá que???!!!!
 
  ***** A “PRAGA” DE JOÃO ANTONIO….
           Que bela capa. Que texto delicioso. Terminei a leitura e interrompi a do Zanin: “20 anos da morte de João Antônio. Foi na segunda-feira, e só agora estou lendo o texto. Tenho que achar a foto de uns 40 anos atrás, na UnB, quando ele fez uma palestra para nós e, antes, sem saber, num fusquinha, me rogou uma praga!!!!”.
                   Zanin, que fez um imenso Encontro Notável, para o Estadão, com João Antônio, numa perifa paulistana, uns dois ou três anos antes da morte dele, me olhou sabendo que eu perderia o sono, pois abriria dezenas de gavetas atrás de uma
foto de papel, feita …40 anos atrás.
              Depois de bagunçar ainda mais a casa, e consumir uns 90 minutos em insana procura, achei a foto que ilustra esta rememoração…. 
                     Não há data na foto. Mas, pelas minhas lembranças, o ano é 1975 (ou 1976). Eu tinha uns 19 ou 20 anos e estudava Jornalismo na UnB (Universidade de Brasília, o “n” é minúsculo). Luiz Carlos Machado e eu éramos representantes estudantis (não havia DCE, nem Diretório Acadêmico, na UnB, devido aos rigores do reitor José Carlos Azevedo, físico nuclear e capitão de mar-e-guerra). Havíamos promovido um festejadíssimo Encontro de Jornais Alternativos/Nanicos (Pasquim, Opinião, Movimento, Coojornal, De Fato, o finado Binômio, etc), que fôra proibido e, mesmo assim, lotara o imenso Teatro de Arena.. E iniciáramos uma série com escritores que nos encantavam na época. João Antônio foi o primeiro. Plínio Marcos, o segundo. Plínio vendeu todos os exemplares que enchiam uma sacola de nylon imensa, que ele mesmo carregava. 
Na maior inocência, perguntei:
— Por que você não trouxe mais livros?
— Na lata ele me respondeu: você está achando
que eu tenho lombo de jegue??…
. Voltemos a João Antônio:
          Luiz Carlos Machado e eu, como representantes estudantis e anfitriões, ciceroneamos João Antônio por Brasília. Estávamos num fusquinha, a caminho da UnB. João falava o que queria e nós, embevecidos, ouvíamos. Num certo momento, ele comentou:
       — Veja que loucura, que coisa mais anti-natureza, mais anti-tropical. As mulheres brasileiras estão usando umas sandálias de saltos enormes, chamados plataformas, que as deixam a uns dez centímetros do chão. Isto não é um calçado, é uma armadilha. Muitos acidentes vão ocorrer. (Eu, que calçava uma plataforma coberta de cortiça, com várias tiras cruzadas feitas de tecido “calça Lee”, me encolhi no banco de trás do Fusca e fiquei caladinha. Como usava uma calça jeans boca de sino, dava para disfarçar)…. O papo prosseguiu até chegarmos à UnB e ele falou muito de suas reportagens na revista Realidade. Na UnB, fez uma bela palestra. Sentei o mais perto dele que pude (na foto, além de mim, segurando o queixo — risos — estão Suely e Carlito Michiles, irmão do cineasta Aurélio “O Cineasta da Selva” Michiles). A
palestra de João Antônio foi maravilhosa. Ele falou de seus livros, de Lima Barreto, do Brasil sob ditadura militar, de imprensa alternativa, relembrou o ZiCartola… Passaram-se alguns meses e caminhava eu numa rua de Taguatinga, cidade-satélite onde eu morava, com minha altíssima sandália plataforma de cortiça. Tropecei, por alguma razão, e levei um tombo tão feio, que nem o jeans que usava foi capaz de proteger meu joelho. Puiu-se o tecido e meu joelho, ralado no passeio rude da avenida, ficou em carne viva. Mancando, segui para casa, lavei a ferida e coloquei mertiolate. Não se usava ainda roupa rasgada à moda punk (aliás, nunca usei, nem vou usar) e meu jeans escalafrado perdeu sua vez no meu resumido guarda-roupa. Sem querer, João Antônio rogara uma praga na sua jovem (e encantada) anfitriã candanga. *****P.S. — Hoje (05-11-16), na FSP, um escritor e doutor, creio que pela USP, BRUNO ZENI, publica ótimo, sintético e poderosos ensaio sobre João Antônio, citando mestrandos e doutorandos que continuam debruçados sobre o autor de “Calvário e Porres do Pingente Afonso Henriques de Lima Barreto”, entre tantos outros. Agora que uma mulher, Josélia AGUIAR, vai comandar a Flip e, finalmente, homenagear Lima Barreto, sugiro homenagem dupla: ao grande ficcionista black e a João, que morreu abraçado a seu rancor, sozinho num apartamento na Copacabana carioca e cujo corpo só foi encontrado, porque (e quando) os urubus já rondavam o prédio… 
 
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