VITTORIO DE SETA E JEAN-LOUIS COMOLLI: IL MONDO
PERDUTO (COLETÂNEA DE CURTAS)

+ VITTORIO DE
SETTA & COMOLLI:
abaixo, dois textos, um
de José Carlos Monteiro e
outro de Carlos Alberto Mattos

+ PREMIO FENIX (MEXICO): FINALISTAS

*** JEAN-LOUIS COMOLLI E O
ITALIANO VITORIO DE SETA

**************Recebi dois e-mails, um de Carlos Alberto Mattos e outro de José Carlos Monteiro. Agora está tudo esclarecido. De Seta não realizou um filme chamado “O Mundo Perdido”. O que aconteceu é que a Editora Feltrinelli, da Itália, lançou os curtas que ele produziu nos anos 1950 numa coletânea chamada Il Mondo Perduto. Vista e estudada por Comolli e e apreciada por Martin Scorsese. Desfrutem, pois, dos textos de Mattos e Monteiro (***E Ely Azeredo descobriu que Georges Sadoul tem seu nome no crédito de um outro filme, creio que como roteirista. Mas não dirigiu nenhum filme sobre os Irmãos Lumiàre).

DE SETA POR COMOLLI: Há dias busco tempo para conferir algumas de minhas anotações feitas ao longo das dez horas de uma sexta-feira (30-09-16) que passamos, durante o DOC SP (na Unisb), com o cineasta e pensador francês Jean-Louis Comolli. Duas me intrigavam. A primeira (anotei errado???) registra que George Sadoul (1904 -1967) conhecera os Irmãos Lumiére (o que é certíssimo!!!) e fizera um filme (um doc) com eles. Busquei este filme em várias fontes e dele não há nenhum registro. Há vários títulos feitos sobre a importância dos longevos irmãos Auguste (1862-1954) e Louis Lumière (1864-1948), mas nenhum assinado por Sadoul. Encontrei uma única referência ao nome dele na equipe de um filme (na função de narrador) (*). Nada mais. Então, creio, errei. Sadoul fez de sua convivência com os Lumiére apenas um livro. ****
A outra anotação (confusa) registrada no meu caderno se referia a um (suposto) cineasta “Victor Setaro, …Calabria”. Como sou siderada por Vittorio de Seta (Palermo, Sicília, 1923-2011), diretor de um dos filmes da minha vida (BANDITI A ORGOSOLO, 1964) — vide meu depoimento ao livro da Mostra SP: “Memórias do Cinema – Um Idioma Universal” (Editora Brasileira + Mostra, 2016) — resolvi duvidar de minhas anotações. O que dizem elas? Que Comolli enaltece um realizador italiano, um grande documentarista, que registrou um mundo “antigo” povoado de pescadores artesanais, com seus arpões e instrumentos rudes. E também camponeses que batiam o trigo, debulhavam espigas, ajudavam-se uns aos outros. Sozinho, teria realizado um filme em cinemascope, chamado “Mundo Desaparecido”. Um filme que continha a visão mais bela e mais completa que um documentário poderia fornecer como memória (daqueles pescadores e daqueles camponeses). Assistindo ao filme, hoje, poderíamos ver “o poder do cinema em registrar o visível, os sons, o falar daqueles meridionais (naquele tempo)”. Somos seres históricos. E Comolli reafirmava que tal realizador fizera tudo sozinho (câmara, som, montagem, tudo). (Antes, o francês lembrara que “o Capital ataca a memória, aposta no homem destituído de História”)…. Bem, como a obra de De Seta só chegou ao Brasil em pequena mostra de seus documentários numa Jornada de Cinema da Bahia (há uns 25 anos atrás) e na MOSTRA SP (com “Banditi a Orgosolo”) não sabia precisar se era ele o realizador polivalente, que tudo fizera ao filmar aquele “mundo desaparecido”. ****************Pois é ele mesmo: entre 1954-59, ele realizou “Il Mondo Perduto” (ver esclarecimento acima). Este foi o filme (esta coletânea) que recebeu de Comolli, em sua passagem por São Paulo, os mais entusiasmados elogios.

******VITTORIO DE SETA,

JEAN-LOUIS COMOLLI E…

POR JOSÉ CARLOS MONTEIRO (RIO)

Caríssima Rô

Por causa da sua admiração por Vittorio De Seta, autor do clássico e injustamente esquecido Banditi a Orgosolo, e devido à sua curiosidade pela alusão de Jean-Louis Comolli a um original documentário dele, “Il Mondo Perduto”, feito em 1954, resolvi resgatar algumas informações que talvez lhe interessem.

Para começar, na produção documentária de De Seta, que abrange um período de seis anos, de 1954 a 1959, não localizei o citado Il Mondo Perduto. Talvez o título dado por Comolli seja outro. Em 1954, ele fez Pasqua in Sicilia, Lu tempu di li pisci spata e Isole di fuoco, este último premiado no Festival de Cannes em 1955. No ano seguinte, De Seta dirigiu Surfarara, Contadini del mare, Parabola d´oro e refez Pasqua in Sicilia (dessa vez dispensando a colaboração no roteiro do crítico Vito Pandolfi).

Antes de estrear na ficção em 1962, com o mencionado e comovente Banditi a Orgosolo, De Seta faria ainda os documentários Pescherecci (1958), Pastori di Orgosolo (1958), Un giorno in Barbagia (1958) e I dimenticati (1959). Esta é a filmografia do diretor estabelecida por Jacopo Chessa e passível de confirmação numa consulta aos livros Vittorio De Seta. Il mondo perduto (Lindau, 1999) e Il cinema di Vittorio De Seta, editado por Alessandro Rais (Giuseppe Maimone Editore, Cataria, 1995). [Provavelmente a referência de Comolli tem a ver com o título citado acima.]

Os críticos Goffredo Fofi, Gianni Volpi e Alberto Farassino escreveram belas coisas sobre ele, assim como o nosso conhecido Lino Miccichè, no capítulo “Le solitudini di Vittorio De Seta”, na sua coletânea Il cinema italiano degli Anni ´60 (Marsilio, 1975). Do que escreveram, pode-se concluir que De Seta, trabalhando isolado e independentemente no panorama cultural da Itália dos anos cinquenta, foi efetivamente um criador singular, nos aspectos técnicos e formais e na abordagem do mundo siciliano. Realmente, fica difícil imaginar um documentário em cinemascope (e Ferraniacolor) e registro do som diretamente e não se fazia à época.

Jacopo Chessa acha que à primeira vista essa opção parece negar uma relação direta com a realidade, mas o fato é que De Seta visa um realismo dramático pela sua vocação metafórica e mítica. O próprio diretor explica que a tela larga e a cor poderiam ajudar a apresentar os tipos humanos e a paisagem com maior realismo. É ousadia (e algo contraditório) imaginar isso em relação ao cinemascope, formato recém-adotado à época somente para espetáculos de ficção. Filmar os pobres sicilianos numa paisagem pobre, em cores e tela larga, representou uma novidade. Lino Miccichè diz que no esplendor visual dos filmes documentários de De Seta há uma atitude contemplativa, quase isenta de julgamento da realidade social e humana.

Mas De Seta parecia determinado a valorizar a imagem fílmica a se distanciar da prática convencional do documentário e a evitar qualquer comentário falado ou acompanhamento musical. Por causa disso, a revista Cinema Nuovo o acusou de tendência esteticista, de fazer um cinema que se satisfazia com um olhar formalista e sem crítica da realidade. Comolli deve ter ficado empolgado com a retórica da antirretórica que distingue os documentários do cineasta. Mas só poderemos emitir um julgamento vendo os filmes – o que parece algo remoto.

Mas me diverti remexendo essas observações.

Um abraço

José Carlos Monteiro

+ VITTORIO DE SETA & COMOLI
(Por Carlos Alberto Mattos)

Rô, um texto meu sobre filmes de
De Seta que ajuda a esclarecer a confusão sobre
o Cinemascope ou Cineramica e sobre o título
“O Mundo Perdido”. Meu texto é de 2011 (portanto,
dois anos antes da morte de De Setta)
Bjs, Carlinhos

PUBLICADO EM 2011 — Não confunda De Seta com o mais famoso e prolífico Vittorio De Sica. Nascido em Palermo, em 1923, De Seta ainda é vivo e filmou até 2006. Sua reputação, no entanto, é mais ligada a esses 10 curtas realizados na Sicília e na Sardenha entre 1954 e 1959, todos com esplêndida fotografia em cores. À exceção de Páscoa na Sicília e Os Esquecidos, que enfocam festas populares, o tema dos demais é o trabalho na pesca, no pastoreio, nas minas, nas lavouras de trigo, na fabricação de pães. Trabalho e cotidiano familiar interligados em narrativas cheias de senso de atmosfera, ritmo e poesia. Por vezes somos tomados pela mesma imersão que nos provocavam os bons e velhos filmes dos Irmãos Taviani e de Ermanno Olmi (A Árvore dos Tamancos).

Há um pouco de Flaherty na sutil encenação do trabalho, um pouco de Grierson na seleção de momentos e na criação de climas dramáticos. Vários curtas foram filmados em Cinemascope ou num certo Cineramica, formatos que ampliam o espectro do quadro com efeitos magníficos sobre a paisagem e as aglomerações de camponeses. Sem entrevistas nem narração, as imagens dão conta de tudo, auxiliadas de maneira muito evocativa por sons ambientes e cantos de trabalho. Em cena, um modo de vida rude e arcaico, visto por De Seta com um viés lírico, embora não exatamente nostálgico. O conjunto dos filmes foi lançado em DVD na Europa com o título de “O Mundo Perdido”.

Mas nem tudo ali é passado. Quem assistir, por exemplo, a Camponeses do Mar, vai ver cenas assustadoras do cerco e matança do atum, que em tudo se assemelham aos momentos mais sangrentos de The Cove, vencedor do Oscar de doc do ano passado. As condições de trabalho dos mineiros de enxofre em Surfarara talvez não sejam muito diferentes das que prevalecem ainda hoje em certas minas do Terceiro Mundo.

Em cada curta de De Seta, experimentamos (mais do que testemunhamos) um dia na vida de um grupo. É extraordinário o uso da luz e da montagem para restituir o fluxo do tempo e da labuta, com seus momentos de preparação, espera, progressão, clímax e repouso. Não há como não destacar a expectativa dos moradores de Stromboli durante as erupções de 1954, a “coreografia” dos debulhadores de trigo em A Parábola do Ouro ou a quase sublime condensação do cotidiano em Um Dia em Barbagia.

Alguns desses filmes podem ser encontrados no Youtube ou em sites de download.

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