PREMIO ALMANAQUE PARA VINCENT CARELLI (CORUMBIARA, MARTIRIO)
+ BIENAL DO CINEMA INDÍGENA HOMENAGEIA CARELLI

+ PREMIO ALMANAQUE

O Prêmio Almanaque número 160 (Ano 14), deste mês de outubro de 2016, vai para o cineasta Vincent Carelli (criador do Projeto Vídeo nas Aldeias) por seus filmes, os épicos “Corumbiara” e “Martírio” (duas primeiras partes de trilogia que se complementará com “Adeus, Capitão”). Como volta seu olhar-câmara aos povos espoliados desde o “descobrimento” do Brasil, há quem o veja como “cineasta de tema”. Ou seja, como realizador de filmes que não se preocupam com sua manufatura-escritura (o juri do Festival de Brasília o viu por este prisma). E sim (e apenas), com suas mensagens e denúncias. Visão estreita. “Corumbiara” começa em 1985, numa gleba, em Rondônia, onde houve um massacre de índios. Carelli filmou aquele momento conflagrado. Mas o massacre caiu no esquecimento institucional. Dez anos depois, ele regressou ao local (com o indigenista Marcelo Santos). Com sua câmara, claro. E saiu em busca insana por um índio isolado. Aproveitando, claro, para mostrar que a matança dos povos originários seguia implacável. Sem maniqueismos, “Corumbiara” abre espaço, também, para a autocrítica das próprias estratégias indigenistas (ofício que ele, Carelli, também abraça). Com “Martírio”, o cineasta registra a tragédia cotidiana do povo Guarani-Kaiowá. Se os povos da grande Amazônia e da Amazônia Xinguana têm territórios para viver, o mesmo não se dá com os Guarani-Kaiowá. Estes sobrevivem em estado da Federação que é um dos epicentros do agronegócio (Mato Grosso do Sul). E precisam enfrentar a fúria diária de fazendeiros e parlamentares unidos sob a bandeira da UDR (União Democrática Ruralista). Ao longo de 2h40, Carelli passa ao largo dos “filmes de índios” idealizados, aqueles que mostram povos integrados à Natureza, caçando, banhando-se ou praticando rituais sagrados. O que vemos é uma espécie de “western” caboclo. Forças poderosas (governador, senadores, deputados, fazendeiros e empresas de segurança) unidas para exterminar os índios e ampliar seus agro-negócios (e eternos poderes). Nunca, em nenhum filme brasileiro, se viu o Parlamento (ou parte significativa dele) tão exposto quanto em “Martírio”. E mais: o filme dessacraliza o Marechal Cândido Rondon, mostra índios arregimentados pelo Governo Militar para ajudar em práticas de tortura, faz recuo histórico até a Guerra do Paraguai, mergulha no ciclo econômico da Erva-Mate para que conheçamos a origem de tão sanguinária luta pela posse da terra, mostra a resistência da língua guarani (ainda não exterminada) e a arrebatadora performance de Ailton Krenak (cobrindo seu rosto com tinta preta) em pleno processo Constituinte, em 1988. Carelli se coloca em cena como diretor e indigenista e — o que faz de “Martírio” um clássico de nascença — apresenta imagens feitas pelos próprios índios municiados (pelo Projeto Vídeo nas Aldeias) com pequenas câmaras. Ouvíamos, antes, os índios dizerem que pistoleiros e empresas de segurança de fazendeiros atiravam neles para arrancá-los de seus pequenos nacos de terras comunitárias. Mas nada víamos. Em “Martírio”, assistimos ao índios gritando-e-filmando sob o pipocar das armas a serviço da UDR. Um épico que coloca Carelli e o projeto Vídeo nas Aldeias na linha de frente do cinema documental brasileiro. A partir da próxima quarta-feira, Vincent Carelli vai receber (merecidíssima) homenagem da Bienal do Cinema Indígena, comandada por Ailton Krenak.

Anúncios