*****CINECEARÁ 2016 – Ano 26 — Os cineastas mexicanos Yulene Olaizola & Rubén Imaz (numa das fotos, ao lado do ator Chico Diaz, brasileiro nascido no México) participam da disputa pelo Trofeu Mucuripe de “melhor filme ibero-americano”, no CineCeará, com o longa-metragem EPITÁFIO. Trata-se de épico concentrado em três personagens, o Capitão Diego Ordaz (Xavier Coronado) e seus auxiliares, os soldados Gonzalo (Martin Roman) e Pedro (Carlos Triviño). Os três atores são espanhóis radicados no México e nenhum deles é intérprete profissional. Coronado é pesquisador e escritor, que fez teatro universitário na juventude, Martin é roteirista de cinema e Triviño, mecânico. “Se trabalhássemos com atores mexicanos, teríamos o problema do sotaque. Seria difícil para o público acreditar que eles representavam espanhóis chegando ao Novo Mundo para conquistá-lo”. Com a crise econômica que se abateu sobre a Espanha contemporânea, muitos castelhanos migraram para o México. O que facilitou na escalação dos três “atores naturais”. Outra postura dos dois realizadores consistia em trabalhar com rostos não-famosos. “Em momento algum”– contaram os dois cineastas no debate sobre o filme — “pensamos em convocar Gael García Bernal ou Diego Luna para encabeçar nosso elenco” (risos). Fiéis ao aprendizado no Centro de Capacitação Cinematográfica, uma das mais importantes escolas de cinema do país, e a um passado como documentaristas YULENE & RUBÉN partiram para uma produção de baixo orçamento (apenas 300 mil dólares). Isto para construir um épico histórico, que coloca, no ano de 1519, três conquistadores subindo o Pico de Orizaba, com 5.400 metros de altitude, até chegar ao Vulcão de Popocatéptl. O objetivo dos três conquistadores era encontrar enxofre, componente essencial à fabricação da pólvora. Pólvora que possibilitaria aos espanhóis, em nome de Deus e do Rey Carlos V, conquistar o México e outras partes do Novo Mundo. Admiradores de filmes como “Aguirre, a Cólera dos Deuses”, de Werner Herzog, e de “Cabeza de Vaca”, de Nicolas Echevarria (de quem foram alunos o Centro de Capacitação), eles seguiram conselho do próprio Herzog: “leiam o livro ‘Historia Verdadera de la Conquista de la Nueva España’, de Bernal Díaz del Castillo, que nele vocês encontrarão incríveis narrativas para novos filmes”. Os dois cineastas e roteiristas encontraram, neste livro, dois parágrafos referentes à empreitada de Don Diego Ordaz. A complementaram com pesquisas em outras fontes e encontraram valiosas cartas do conquistador endereçadas à Coroa Espanhola. Mobilizaram seus “atores” e um fotógrafo muito especial, já que experiente praticante de alpinismo: Emiliano Fernández. Daí em diante, os dois cineastas, atores e equipe técnica fizeram curso de alpinismo para enfrentar a montanha nevada. Quando todos se sentiram preparados, eles iniciaram as filmagens, que duraram menos de quatro semanas. Instalaram três acampamentos no Pico de Orizaba, a 4.300 metros de altura, 4.800 e 5.100. “Infelizmente”– contaram — “com o aquecimento global, as neves do Pico já não lembraram as de outrora, mesmo assim, trabalhamos em condições adversas”. A fotografia, em cores, é dessaturada e, à medida que os três conquistadores, com suas armaduras e roupas de época, vão chegando a partes mais altas da montanha, a imagem assume quase o preto-e-branco (a cor escura da rocha e o branco da neve). Mas na pós-produção, lembraram os diretores — “buscamos ressaltar os tons dourados e prata, pois foi também em busca destes dois minerais que os espanhóis empreenderam a conquista”. O filme adota pegada realista, mas em dois momentos assume tom alucinatório. À medida que vão chegando à parte mais alta da montanha, o cansaço vai tomando conta dos três personagens. Um deles, Pedro, fica pelo caminho. Don Ordaz segue decidido, com o fiel Gonzalo a reboque. Este, tangido pelo frio, a fome e medo, acaba tendo alucinações. Numa delas, vê uma flecha ferindo o corpo do capitão. Em outro, vê — com o oxigênio cada vez mais rarefeito — o sangue escorrer das orelhas de Don Diego Ordaz, enfeitadas com conchas, aproximando-o de um xamã. Os dois realizadores, que são marido e mulher, contaram que, ao escrever e filmar EPITAFIO, fugiram das visões sem matiz da Conquista. “Não quisemos, em nenhum momento, apostar no maniqueísmo. Quisemos, isto sim, traçar um quadro mais complexo, entender o que movia aqueles três soldados a serviço de Deus e da Coroa”. O nome EPITÁFIO, que — como lembrou o brasileiro CHICO DIAZ — evoca morte e, por consequência, fracasso, intitula um filme que termina com uma vitória. Afinal, Don Ordaz & Gonzalo chegam ao cume da montanha e encontraram o enxofre que alimentaria as armas usadas para conquistar a capital azteca de Tenochitilán. Os mexicanos lembraram que, em alguns países da Europa, Epitáfio significa também insígnia gravada em um brasão. E que o rei Carlos V ordenou que se colocasse no brasão de Don Ordaz, o desenho do vulcão por ele conquistado. O filme de YULENE OLAIZOLA & RUBÉN IMAZ será lançado em agosto, no México, num momento em que a cinematografia mexicana vem tendo dificuldade de diálogo com seu próprio publico. Segundo tabela elaborada pelo OBSERVATÓRIO EUROPEU, o México ocupou, em 2015, apenas 6,1% de seu mercado interno com produção nacional, ficando atrás da Argentina (14,5%), Brasil (13%) e Peru (7%). E sendo quase alcançado pela Colômbia ( quase 6%).

Enviado do Ipad de Rosário

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