******OLHAR DE CINEMA 2016 + VERA VALDEZ BARRETO, DO TEATRO OFICINA, CO-PROTAGONIZA “A ÚLTIMA TERRA”, LONGA DE ESTREIA DO PARAGUAIO PABLO LOMAR. NAS FOTOS ABAIXO, VERA ESTÁ COM A FILHA, A CANTORA E ATRIZ MARIANA DE MORAES, COM O PRODUTOR DIOGO DAHL (DE “CINEMA NOVO”, SE ERYK ROCHA) E COM ALY MURITIBA, UM DOS DIRETORES DO OLHAR DE CINEMA. MAIS INFORMAÇÕES ABAIXO:

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***FLASHES DA
EDIÇÃO NÚMERO 5 DO
FESTIVAL OLHAR DE CINEMA:

* Surpresa paraguaia: “A Última Terra”, de Pablo Lamar, tem a atriz brasileira Vera Valdez Barreto, do Teatro Oficina, como co-protagonista.

* Bahia (A Cidade do Futuro), Rio Grande do Sul (Eles Vieram e Roubaram sua Alma) e Ceará (O Estranho Caso de Ezequiel) representam o Brasil na competição do Olhar de Cinema – Ano 5.

* “Maestà, A Paixão de Cristo”, Um filme
retábulo, ou filme-instalação (França)

****O frio não espantou o público do OLHAR DE CINEMA. Muitas (a maioria) das sessões do festival curitibano reuniram públicos encapotados, em maioria jovens, em sessões para as quais eu não imaginava que aparecesse nem meia-casa. Cito o desconhecido “Gulîstan, Terra de Rosas”, de Zainê Akyol, anunciado como produção canadense-germânica. Sala lotada no Shopping Batel, sem que sobrasse um lugar que fosse. Na verdade, o filme — um documentário!!! — é CURDO. Embora a diretora (curda nascida na Turquia e criada no Canadá) e a grana sejam oriundos do Quebec (em parceria com a Alemanha) o filme é 100% falado no idioma dos curdos e protagonizado por mulheres curdas e alguns homens (em papéis infinitamente menores) que defendem o território CURDO, armados com fuzis de origem russa ou búlgara. As guerrilheira do PKK (Partido Trabalhista Curdo) defendem seu “país” e suas montanhas das investidas do ISIS (EI – Estado Islâmico, ou Daesh). Talvez a sinopse do filme tenha encantado os jovens (e as jovens, pois o movimento feminista vive — felizmente — uma primavera no Brasil!!!): “Gulîstan expõe a face oculta desta guerra (contra o EI) altamente mediatizada: a face feminina e feminista de um grupo revolucionário unido por uma visão comum de liberdade”. Outros recordistas de público foram o brasileiro (baiano) “A Cidade do Futuro”, de Cláudio Marques & Marília Hughes, um original documentário sobre jovens unidos em novos arranjos familiares, e o peninsular “Amarcord”, que fez acompanhar-se de cenas inéditas editadas (num documentário de dez minutos) por Giuseppe “Cinema Paradiso” Tornattore…

+ OLHAR DE CINEMA 2016:
Nesta quarta-feira, dia 15 de junho, o OLHAR DE CINEMA (Festival Internacional de Cinema de Curitiba) entrega prêmios aos melhores de suas três mostras competitivas: longa internacional (três brasileiros e sete estrangeiros), curta internacional e mostra Outro Olhar (para filmes ainda mais experimentais que os da competição principal).
A representação brasileira no curta conta com um título forte: “A Mulher Que Dançou com o Diabo”, de João Paulo Miranda Maria (do coletivo Kino-Olho, de Rio Claro, interior de São Paulo), prêmio especial em sua categoria, em Cannes, semanas atrás. Mas a concorrência internacional é fortíssima. No programa em que o filme de Miranda foi exibido, havia ótimos curtas do Vietnã, Argélia e China.
Já as chances de nossos longas são menores. Se um deles for premiado, será o documentário (que dialoga com a ficção) “A Cidade do Futuro”, de Marques & Hughes (a mesma dupla do ficcional “Depois da Chuva”, 2013). Os dois realizadores vão a Serra do Ramalho, cidade construída para abrigar os desterrados pela Barragem (hidrelétrica) de Sobradinho, na Bahia dos anos 1970 (em plena ditadura militar). No local não se construiu a ‘cidade do futuro’ prometida pelas autoridades. Lá vivem jovens como os de muitas outras cidades do interior do Brasil. E os cineastas se fixam em três deles — Milla, Gilmar e Igor — que formam família a três, para escândalo de parentes e vizinhança. Para tornar a relação deles ainda mais complexa, surge a gravidez de Milla, que dará à luz o pequenino Heitor. As questões político-sociais da enorme remoção promovida pela hidrelétrica passa, então, para o segundo plano (com poucos, mas ótimos depoimentos) e a trama amorosa (e suas dificuldades) ganha destaque. O filme só não é arrebatador, porque a “encenação” do amor a três sofre de certo artificialismo. Mas há momentos de imensa beleza, principalmente os que envolvem a gestação de Milla, que acompanhamos, em sua evolução natural, na tela. O representante do Ceará (“O Estranho Caso de Ezequiel”, de Guto Parente, um dos integrantes do Coletivo Alumbramento) começa com um personagem carismático — interpretado pelo artista plástico Euzébio Zloccowick, que morreu (no Ceará) três dias antes da estreia do filme no festival curitibano — mas se perde em exercícios formalistas. Já o gaúcho “Eles Vieram e Roubaram Sua Alma” tem um ponto de partida instigante: um jovem, que filma tudo que lhe passe diante dos olhos, tenta encontrar relações e sentidos para tantas imagens. Mas o resultado deixa muito a desejar.
Não vi os representantes da China (“Um Outro Ano”), nem da Itália (“Antônia”), nem da Austria (“Irmãos da Noite”). Dos estrangeiros que vi, a maior surpresa chegou do Paraguai: “A Última Terra”, do jovem Pablo Lamar, protagonizado por dois camponeses idosos (interpretados pelo paraguaio Ramón del Rio e pela brasileira Vera Valdez Barreto*). Quem viu “Hamaca Paraguaya”, de Paz Encina, e gosta de filmes que se constroem só com imagens e silêncios, vai se interessar pelo primeiro longa de Lamar. O filme é, como o já citado “Hamaca Paraguaya”, a antíse absoluta do adrenalinado “Sete Caixas”, maior bilheteria da história do país vizinho (veja em flash abaixo, um pouco mais sobre o filme de Lamar). Outro longa-metragem que se constroi praticamente na imagem é “Maestà, a Paixão de Cristo”. Trata-se de um filme-retábulo (ou de uma instalação pictórica), indicado a quem se interessa por artes plásticas. O cineasta (e também artista plástico) que o realizou (Andy Guérif, nascido em 1977) consumiu oito anos na carpintaria do filme (que dura apenas 61 minutos). Ele construiu leitura original de uma das mais conhecidas histórias do Ocidente: a paixão de Cristo (sua condenação à morte crucificada até sua ressureição). E o fez reelaborando políptico composto de 26 quadros pintados por Duccio di Buoninsegna (de Siena). Nestes quadros, compostos como um destes retábulos que causam fascínio em grandes templos católicos, atores se movimentam para contar (mais uma vez) a história de Cristo. As pinturas (Duccio viveu no Séc. 14) compõem cenário que reproduz a falta de perspectiva da arte medieval. Há poucos (raros) diálogos no filme. O representante do Chile — El Viento Sabe Que Vuelvo a Casa — “O Vento Sabe que Regresso ao Lar” — é um documentário denso, com ótimos depoimentos. Parece um filme comum, mas permanece em nossa memória e vai nos revelando novos significados”. Gulîstan, o curdo, começa com grande força ao somar bons depoimentos das guerrilheiras do PKK, mas poderia ter rendido mais.
**** A ÚLTIMA TERRA — Como a atriz brasileira Vera Valdez Barreto (ou Vera Barreto Leite, nome de sua juventude, quando foi modelo da Channel, em Paris) foi parar num filme paraguaio? Se um jornal de manchetes sensacionalistas a visse no filme de Pablo Lamar, decerto escreveria:
“De manequim da Channel a índia paraguaia”.
Aos 80 anos, Vera, atriz do Grupo Oficina de Zé Celso Martinez Correia, segue em frente com seu corpo magérrimo, suas rugas e seus longos cabelos brancos. Ela foi mulher do ator Luiz Linhares e, depois, tornou-se nora de Vinícius de Moraes, quando casou-se com o fotógrafo Pedro de Moraes, pai de suas filhas, a cantora e atriz (Fulaninha, de David Neves, 1986) Mariana de Moraes e da produtora Júlia de Moraes, ex-mulher do cineasta Claudio Assis, para quem produziu o premiadíssimo “A Febre do Rato”. Libertária, a octogenária Vera não se incomoda em ficar nua, seja nas peças de Zé Celso, seja em filmes. Atuou em dois curtas pernambucanos recentes (ela não se lembrou dos nomes dos filmes, nem de seus autores, durante o debate de ” A Última Terra”, no Olhar de Cinema). Vera contou que conheceu Pablo Lamar em Recife, onde ele esteve participando de algum filme pernambucano. Ele estava preparando sua estreia no longa-metragem e concluiu que Vera poderia interpretar a camponesa mestiça, que vive num lugar ermo (“a última terra”) com o marido (a atriz ouviu Pablo dizer que Ramón del Rio é um “grande ator profissional”, mas pode ser que ele seja um “ator natural” tamanha sua perícia nas lides do campo. Quem viu “Hamaca Paraguaya” decerto o reconheceu!). O que ela se lembra é que “Ramón é muito tímido”. Tão tímido, que ficou constrangido em lavar o corpo morto (e nu) dela (a personagem de Vera está muito doente, morre no começo do filme e permanece em quadro na mais difícil das posições exigidas de um atriz: ficar inerte, sem fazer — claro — nenhum movimento). “Foi doloroso”, conta ela, “pois tive que me manter imóvel, enquanto o sangue corria nas minhas veias, e esperar pelas muitas e necessárias mudanças de luz para eu parecer uma morta de verdade”. A atriz ficou emocionadíssima com o resultado do filme, que viu pela primeira vez em Curitiba.

****MAIS INFORMACOES SOBRE O OLHAR DE CINEMA 2016 NO BLOG ALMANAKITO

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