CURITIBA- PARANÁ — OLHAR DE CINEMA 2016 — Na gelada tarde da última quinta-feira, 9 de junho, quase uma centena de cinéfilos se reuniram no Espaço Itaú de Cinema, no Shopping Crystal, para assistir ao filme ANNA, de Alfredo Grifi e Massimo Sarchielli. Duração: 225 minutos, preto e branco, documentário. Ao apresentar o filme, um dos curadores do festival paranaense, o cineasta Gustavo Beck (co-autor de documentário sobre Chantal Ackerman), deu seu testemunho pessoal: garantiu que iríamos assistir a um filme que o marcara profundamente, uma das mais poderosas experiências cinematográficas por ele vivenciada. Já sabíamos tratar-se de filme sobre uma jovem italiana de 16 anos, sem-teto, drogada e grávida de oito meses. Que zanzava pela Piazza Navona romana até ir morar no apartamento de um dos cineastas (Massimo, um ator de imensos bigodes, roupas espalhafatosas e ideias libertárias). A expectativa era, pois, imensa. O depoimento de Beck serviu para potencializá-la ainda mais. E para agradecermos ao projeto L’Immagine Ritrovata, da Cinemateca de Bolonha, que o restaurou, e ao Olhar de Cinema, que o programou, com legendas eletrônicas em português. A maioria dos cinéfilos saiu da sala em estado de graça. Filmaço. Uma destas raridades que justificam um festival inteiro (e dizem que O MANUSCRITO DE SARAGOÇA também é biscoito fino: vamos vê-lo, hoje, na tela grande). As fotos acima, em poético preto e branco, nos mostram Maximo (e seus imensos bigodes) abraçado à grávida Anna, uma jovem SARDA, linda, rebelde, atrevida, mal-educada. Na segunda imagem, ela está abraçada a Vincenzo (eletricista do filme que vai apaixonar-se por ela ao longo dos dois meses de filmagens — fevereiro e março de 1972). E por fim, a imagem dela, no esplendor de seus 16 anos, com seus longos e loiros cabelos recheados de piolhos. Na cena mais linda do filme, a veremos com seu barrigão de quase nove meses, com os peitos já produzindo colostro, tomando banho com ajuda de Massimo, o ator-cineasta-anfitrião, lavando todos seus pelos com xampu, inclusive os pubianos. Os tempos moralistas de hoje levariam Massimo, Alberto e equipe para cadeia, em questão de segundos. Mas naqueles começos de anos 1970, o mundo fervia. O pó-68 estava vivo nas palavras de militantes políticos libertários, nos sonhos coletivos dos hippies (presença mais significativa na Piazza Navona), num cubano black que, rejeitado na Alemanha e Itália, quer ir para a África encontrar suas raízes e dar um tiro na cara do comandante do apartheid sul-africano. E, em especial, numa manifestação FEMINISTA — esta no Campo de Fiori — comanda por uma linda italiana com poderoso megafone na mão e por mulheres que enfrentam a polícia, esta armada até os dentes, apenas com gestos e palavras de ordem que têm tudo a ver com nossos dias. A mais forte delas: NA FAMÍLIA, OS HOMENS SÃO OS BURGUESES E AS MULHERES PROLETÁRIAS”. A espinha dorsal do filme é a relação paternal-sensual-cinematográfica de Massimo (e a equipe de filmagem) com ANNA, a corsa rebelde. Quando sai do apartamento, o imenso (em todos os sentidos) documentário arma debates performáticos com hippies, anarquistas e outros sonhadores, provoca encontros de pessoas que pensam diferente e deixa rolar. Impera, em todos os momentos, um clima de liberdade total. Os dois realizadores são tão doidos quanto seus personagens. Querem correr todos os riscos. E fazem um bem enorme ao cinema.

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